SAÚDE
Hospital à deriva
Ulisses de Souza

Ulisses de Souza
O Pronto Socorro do hospital de Rancharia protagonizou ontem (21/11) á noite o repetido espetáculo de lotação e má qualidade no atendimento aos pacientes.
Nada disso aconteceria se houvesse uma administração excludente de qualquer compromisso político e cumprisse nas normas e políticas públicas do SUS.
Quem procura o hospital fora do horário normal de funcionamento das Unidades Básicas de Saúde (UBS) é que está sentindo algo diferente. O corpo não falha. Ele avisa quando a coisa não vai bem.
Há décadas tenho alertado que a administração com viés político do hospital prejudica o atendimento principalmente da população de baixa renda, que necessita do SUS.
O hospital de Rancharia viveu momentos exitosos quando administrado pelas irmãs religiosas e até por diretorias apolíticas, como a monitorada por Onésio Flávio. Naquela época – põe anos nisso – o atendimento superava em dois e até três vezes o registrado hoje no hospital.
Cito o exemplo dos partos. Os médicos moravam em Rancharia, acompanhavam o pré-natal e estavam preparados a qualquer hora para trazer as crianças ao mundo. Hoje, quem tem dinheiro recorre aos hospitais de Presidente Prudente, que possuem a UTI pediátrica e a tão necessária incubadora neonatal.
Fiz um levantamento nos livros do hospital para saber quantos partos meu sogro, Dr. João Batista, havia realizado em sua dedicada atividade à saúde de Rancharia. O número foi assustador. Dez (10) mil partos. Várias gerações. Isso sem contar as histórias que ele e o cunhado Dr. Ney Gomes contavam quando iam à cavalo fazer parto na área rural e que não era contabilizado nos registros do hospital.
Hoje, a diretoria do hospital usa um artifício mentiroso e enganador para justificar uma das exigências do Ministério da Saúde para registro do hospital. É só acessar. São mais 80 (oitenta) médicos inscritos como se trabalhassem diariamente em Rancharia. Deles, meia dúzia mora em Rancharia.
O Pronto Socorro também exige algumas especialidades plantonistas. Principalmente um cirurgião. Isso não existe. É um horário que atende feridos em acidentes com veículos e a urgência é vital. Ontem, uma mulher foi atropelada e morreu. Será que foi atendida a tempo como devia, diante daquela muvuca registrada no Pronto Socorro?
Por problemas políticos, os grupos que dominam a cidade se recusaram a colocar em funcionamento a UPA, construída na época da presidenta Dilma. Era o ideal para Rancharia. Urgência 24 horas com local para pequenas cirurgias, como a maioria dos atendimentos inerentes aos acidentes automobilísticos. Na UPA, há a obrigatoriedade presencial de cinco especialistas. Sim, presencial, e não plantonista à distância. Ainda por cima haveria o suporte do SAMU um verdadeiro Pronto Socorro sobre rodas. Vários ferimentos seriam resolvidos pelo médico plantonista no transporte da vítima.
Mas, não. A Prefeitura paga hoje quase R$ 4 milhões para manter o Pronto Socorro do Hospital, porque não possui unidade municipal de urgência e emergência. A UPA seria administrada pelo município.
Agora querem fazer da UPA uma clínica de hemodiálise, promessa eleitoral.
A política, introduzida no hospital por meio da Maçonaria, quebrou todo relacionamento da instituição com os programas e verbas do Ministério da Saúde.
O jornal do hospital mais parece um veículo de comunicação político-eleitoral, tantos são os deputados com fotos inseridas. No último, o governo Tarcísio e o secretário Eleuses foram distinguidos com duas inserções cada um.

O deputado Mauro Bragato parece ter uma sala política no hospital.
O Pronto Socorro seria diferente se houvesse uma administração competente e atrelada às políticas públicas do governo federal.
Na noite de ontem, dois médicos cumpriam o plantão. Um deles, velho conhecido já não consegue abrir os olhos de tantas noites mal dormidas. Outro, recém -formado.
A formação de médicos mudou radicalmente depois de se facilitar o acesso ao curso de Medicina. Inclusive com financiamento federal.
A cada ano, vemos vários jovens da cidade colando grau, prontos para a segunda etapa, a da especialização, seja em especialidades ou em clínica geral (que voltou a ser a mais importante). Alguns, tenho certeza, gostariam de exercer a profissão por aqui.
Conheço uma recém-formada, família de Rancharia, que se prepara para deixar o convívio dos pais e se aventurar em outras praças. Por quê? Porque não conseguiu plantão no hospital (restrito a um seleto grupo ligado à política). Os ESFs da cidade têm como titulares médicos de outras cidades, via suspeita CIOP.
Acredito que os nobres diretores do hospital não devem saber nada sobre os convênios que são mantidos pelo Ministério da Saúde com Santas Casas. A inclusão de estágios (temos 3 faculdades de medicina no entorno); Inclsão de especialidades (também em convênio com faculdades). Ou seja, cursos para recém-formados seriam oferecidos pelo próprio hospital. Vale informar que de cada dez médicos formados apenas um sabe entubar corretamente o paciente.
O hospital de Rancharia prefere procurar políticos atrás de “verbazinhas”, sem projeto de saúde, sem nada. Entra receita e fica embolada no setor financeiro deficitário, que já registrou até desvio de dinheiro, caso sendo apurado em inquérito policial.
O caos de ontem à noite, repito, não existiria se houvesse uma diretoria apolítica preocupada apenas em dotar o hospital de um local digno de receber qualquer paciente, a qualquer hora, com comprometimento do SUS.
Mas, ao que se vislumbra, não vai acontecer. Há rumores que o decano provedor Nelson Coletto Correa será substituído este mês pela ex-vereadora e influente política, advogada Gláucia Araujo, que hoje manda mais que o prefeito Homero Facão.
Ao seu lado se apresenta o saliente médico anestesista, Gabriel Lins, que mora no Paraná, mas se acha consultor do corpo clínico do hospital.
A conferir.
Vida que segue, como escreve meu amigo Ricardo Kotscho (redação UNIOL)
