FUTEBOL

“Deixa o Ancelotti trabalhar!”

Artigo de Ulisses de Souza

“Deixa o Ancelotti trabalhar!”
Publicado em 01/07/2026 às 12:40

Ulisses de Souza

O brasileiro foi cabresteado a seguir o que a elite que manda no país pensa. Isso, desde o império, sem contar a humilhante escravidão.

Na época da ditadura militar foi um horror. Até hoje tem saudosistas de direita que acreditam no “Milagre Econômico”. 

Essa introdução é para afirmar que no futebol todo mundo quer ser técnico, escalar o time. No caso da Copa do Mundo. há uma elite que está nos EUA torrando cartões de crédito em hotéis, lereias, restaurantes, ingressos, locomoções; que adora e aceita as besteiras das TVs, principalmente da Globo, e quer por pilha sobre o técnico Ancelotti. Quer dizer o que o técnico tem que fazer.

Na partida contra o Japão, brasileiros foram unânimes em gritar o nome de Neymar quando a disciplinada equipe oriental vencia por 1 a 0.

Neymar se aquecia e tudo indicava que ele iria entrar no jogo. Esse aquecimento postado em sua página na internet rendeu milhões na conta dele, uma galinha de ovos de ouro.

Ancelotti arriscou tudo e colocou em campo o ainda não famoso Martinelli, que é conhecido pelo sobrenome da família italiana que construiu um dos icônicos prédios da avenida São João, em São Paulo.

Deu sorte. Deu certo ao colocar Martinelli a fim de ajudar Bruno Guimarães que carregava o time nas costas depois da saída de Lucas Paquetá por contusão..

Há um bordão, criado por Jô Soares em seu programa “Viva o Gordo”, em 1982, que dizia “Bota ponta, Telê!”. Mas era uma maneira humorada para sugerir mudança tática do time brasileiro.

Agora, o bordão deveria ser: “Deixa o Ancelotti trabalhar”.

O italiano é um dos técnicos mais vitoriosos do planeta, mas se mostra incomodado com as influências sobre a seleção brasileira. Na atual, teve que engolir muito sapo, com patrocinadores bilionários exigindo seus atletas na seleção. Neymar é o maior exemplo.

O técnico tem contrato até a próxima Copa, em 2030. Vai ter tempo de montar, treinar o time que almeja. Nessa seleção, vai ser possível confiar.

E a atual? Por pouco não é desclassificada pelo modesto Japão, que conheceu a bola de futebol com Zico e Falcão.

Cada Copa que o Brasil venceu tem uma história e a melhor delas é a de 1970, no México. A base da seleção foi montada um ano antes por João Saldanha, jornalista e escritor, profundo conhecedor de futebol. Venceu as eliminatórias invicta.

Ele defendia um time titular altamente ofensivo e convocou jogadores dos principais times brasileiros. Ficaram conhecidos como “feras do Saldanha”.

Mas João não era apenas um estudioso de futebol. Era político, filiado ao Partido Comunista do Brasil. Não tinha papas na língua. Como um “comunista” dirigindo a seleção?. O ditador presidente Emilio Médici, então, quis se meter na convocação dos atletas e recebeu uma direta de Saldanha: “Nem eu escalo ministério, nem o presidente escala time”. O técnico-comunista foi demitido a 78 dias do início da Copa e substituído por Zagalo.

Quem não se lembra do ataque demolidor que tinha Jairzinho, Tostão, Pelé, Gerson e Rivelino? Ninguém se preocupava com o goleiro Félix e os zagueiros da área Brito e Piaza. “Se levarmos um gol, fazemos dois” era o bordão. Era o modo Saldanha de jogar.

Portanto, deixem Lancellotti em paz. Está fazendo o que pode com os “bilionários da bola”, convocados por interesse financeiro da CBF, tradicionalmente com uma baita história de corrupção.

Que venha a Noruega. Só nos resta torcer, sem se intrometer.

“Deixa o Ancelotti trabalhar”.