DEMISSÕES
O passaralho da TV Fronteira
Passaralho é um jargão jornalístico que significa demissão coletiva. Na TV Fronteira tem data e hora

Ulisses de Souza
Passaralho significa demissão coletiva. Os jornalistas sempre usaram esse termo como um jargão para registrar ameaças de dispensas nas empresas de comunicação, mas não de forma massiva.
Os empregados do Grupo Paulo Lima, ameaçados pelo anunciado fim da concessão Globo, vão enfrentar o verdadeiro Passaralho quando terminar esse contrato, previsto para o dia 31 de agosto.
Até lá, quem puder escapar da anunciada demissão dê-se por feliz. Dificílimo encontrar uma recolocação profissional em mercado restrito de empresas de comunicação, como em Presidente Prudente.
O número de desempregados será alto após o Passaralho. Nem todos terão a oportunidade de ir em frente e buscar emprego em outro município.
A 75 dias do Passaralho, leio e publico no meu site UNIOL que os Sindicatos de Jornalistas e de Radialistas enfrentam, juntamente com o Ministério Público, resistência patronal em marcar reunião para discutir e tentar garantir os direitos de um pouco mais de uma centena de trabalhadores.
Passei por um Passaralho justamente em um veículo de comunicação do Grupo Paulo Lima. O saudoso jornal Oeste Notícias. Era o editor responsável.
A pergunta que eu mais ouvi: “chefe, você vai deixar barato as horas que passou a mais em fechamentos de edições complicadas?”
Serenamente, respondia: “o meu cargo não especifica horário, eu aceitei assim e vou ser o último a sair como jornalista do Oeste Notícias, pela porta da rua Kametaro Morishita, e fim de mais uma cruzada profissional”.
Desestimulei aqueles que queriam impetrar ações trabalhistas. Não, que não tivessem direitos. Alertava sobre a dor de cabeça e o prejuízo em pagar advogados.
Dito e feito. Há equipamentos da TV Fronteira que garantem a ação vitoriosa de alguns sobreviventes do Passaralho final do Oeste Notícias. Mas, em vão. Esses credores dificilmente conseguirão que os bens sejam transformados em dinheiro em leilões.
Um exemplo é o Grupo Matarazzo que conseguiu atrelar a indústria de Rancharia, ainda sobrevivente, a todas as ações trabalhistas das empresas, inclusive as dos funcionários da fábrica da Água Branca, em São Paulo, pioneira do maior conglomerado financeiro-econômico que o país já registrou. Pelo que ouvi de uma juíza do Trabalho, que oferecia a indústria de Rancharia em leilão: “nem os tataranetos dos operários da Água Branca vão receber”.
Vocês, funcionários do Grupo Paulo Lima, a espera do Passaralho, hão de me perguntar, então: o que fazer?
Tenham coragem e informem nos programas jornalísticos da TV Fronteira a situação de vocês, as reuniões solicitadas pelos Sindicatos para defendê-los, que o Grupo Paulo Lima não quer participar. Entrevistem a procuradora do Ministério do Trabalho que tenta mediar um acordo. Ouçam o advogado do Grupo do proprietário.
Além de chefe de redações, fui repórter, mero executor de pautas jornalísticas. Aprendi com meu chefe Perseu Abramo, hoje nome de Fundação Cultural, que “o grau de controle que o jornalista tem sobre seu produto final é mais ou menos o mesmo que tem um metalúrgico sobre a decisão de fabricar um automóvel de luxo para benesse de minorias privilegiadas ou um ônibus para o transporte coletivo”.
Perseu tinha a coragem de escrever que “o código de ética dos jornalistas, portanto, a priori e por exclusão, absolve os empresários de comunicação que, em última análise, são exatamente os autores e proprietários do produto final, isto é, da matéria jornalística”.
Então, precisamos, exatamente, separar o jornalista, empregado e assalariado, do empresário da comunicação, que no Brasil é membro de uma pequena casta que se mantém por privilégios políticos.
Por isso, acho que chegou a hora de essa centena de pais de família que estão caminhando rapidamente para o abatedouro do Passaralho se posicionem enquanto possuem em suas mãos o “produto” citado por Perseu Abramo.
A negociação é agora. E as armas são similares até o dia 31 de agosto. Apenas até a consumação do Passaralho.
Colegas de profissão e companheiros, façam valer o domínio que vocês ainda têm sobre o produto televisivo mais popular do país.
Compareçam à mesa da negociação com altivez, ética e com carta na manga.
