HISTÓRIA

Rancharia desmemoriada aceita qualquer versão sobre a sua história

O jornalista Ulisses de Souza contesta publicação feita no Facebook que explica a origem do nome da cidade

Rancharia desmemoriada aceita qualquer versão sobre a sua história
Publicado em 28/11/2025 às 21:39

Ulisses de Souza

Rancharia possui mais de cem anos de história. No entanto, é totalmente desmemoriada, pois nunca um gestor público entendeu a necessidade de resgatar uma narrativa real (ou próxima) aos fatos ocorridos nesse passado centenário.

Diante de tanta inculturação ditada pela dominante sociedade conservadora do município, histórias aparecem e são recebidas como verdadeiras, já que não há informações que possam alicerçar um questionamento.

Vejam vocês. Uma página no Facebook intitulada “Terratrend”  publicou no dia 26/11, quarta-feira, às 18h08, uma postagem sobre Rancharia e uma pequena descrição histórica.

Diz assim: “Você sabia que tem uma cidade inteira que nasceu de um simples acampamento de ranchos de operários de ferrovia? No começo de 1916, a Estrada de Ferro Sorocabana montou seu maior acampamento rumo ao rio Paraná e os feitores começaram a chamar o lugar de Rancharia. O nome pegou… e virou cidade”.

A página foi solenemente acolhida pelos internautas de Rancharia. Até as 18h09 do dia 28/11, sexta-feira. Portanto 48 horas, foram registrados 834 curtidas, 115 comentários e 141 compartilhamentos.

Números inegáveis de aprovação. Cada hora, 17,3 pessoas curtiram; 3 pessoas compartilharam a página e 2,4 pessoas postaram comentários.

Vários gestores públicos com cargos na atual administração compartilharam.

Isso mostra que nenhum deles poderia (ou não quer) sugerir uma ampla pesquisa a fim de dotar o município de Rancharia de uma narrativa mais próxima ao que pode ter ocorrido no passado.

Comecei a escrever um livro, uma mistura da história do município com a minha. Titulei como “Rancharia e a terra de ninguém”.

Nasci em 1948 e a partir deste ano possuo informações fornecidas por meus pais, e a partir de uma idade infantil, as que minhas lembranças não me traem, uso para compor o texto.

Já escrevei até o ano de 1936, quando o primeiro prefeito eleito foi empossado.

Como nesse período, eu não era nascido, fiz as pesquisas que pude, sem me aprofundar a fundo no Arquivo do Estado de São Paulo, onde estão documentos imperiais sobre a presença (e dizimação) dos indígenas na região oeste paulista.

A primeira contradição que pesquisei põe por terra a versão de que o nome do município surgiu por causa do acampamento de ranchos de operários que construíam a ferrovia, como diz a postagem do “Terratrend”.

Antes dos trilhos chegarem ao tal povoado, Rancharia já era o nome dado a uma clareira aberta na mata no final do século XIX (1892 a 1894), com choças de sapé que serviam de pernoite dos peões que, em comitivas, transportavam as boiadas.

Essa clareira pertencia a “estrada boiadeira” que o governo tentou construir com o objetivo de abrir no meio da selva um caminho a fim de transportar para São Paulo o gado bovino que era criado no Mato Grosso.

O governo também queria com essa estrada enviar profissionais para tentar regularizar as terras que começavam a ser invadidas causando mortes de tribos indígenas.

Essa estrada foi considerada um fracasso. Durou apenas dois anos. A mata voltou a tomar conta. Um relatório enviado ao governo paulista justificou o malogro. Citava a presença de índios e pela parte deserta no trecho entre o rio Paraná e CAMPOS DE RANCHARIA. E, provavelmente, essa tenha sido a origem do nome do município.

Mas há muito mais. As terras de Rancharia faziam parte da Fazenda Pirapó-Santo Anastácio. Isso, entre 1854 e 1856. Os documentos desse imóvel se mostraram falsos. A área é conhecida como a maior grilagem de terras do estado de São Paulo. Muitos perímetros ainda estão sendo questionados na Justiça, no conhecido “Conflito Fundiário do Pontal do Paranapanema”.

Rancharia é uma exceção. Foi o primeiro perímetro a ser legalizado, em sentença de 1ª instância, pela Comarca de Paraguaçu Paulista, e confirmada pelo TJ de Presidente Prudente. As pesquisas devem mostrar a quem interessou essa legalização? Arquivo do Estado deve ter toda a documentação.

A versão mais complicada da chegada dos trilhos foi a reação da tribo que predominava na região, a “caingangue-dourado”. Armados de arco e flecha os indígenas atacaram o então “ranchos dos operários que construíam a ferrovia”. O episódio, violento pela sua natureza, teve uma resposta do governo, que enviou à região uma expedição imperialista que dizimou os caingangues em um sangrento combate que ficou conhecido como o “maior genocídio de indígenas no oeste paulista”.

E o que mais chama a atenção é um documento enviado ao imperador que destaca o local do genocídio, que seria hoje onde está localizada a estação ferroviária e o seu entorno (vila industrial e bairro do Sossego).

Meu livro é despretensioso, com narrativas familiares e de pessoas que se destacaram no município. Mas indica a urgência de contratação de historiadores – a cidade possui alunos egressos da Unesp de Assis – para recuperar os fatos ocorridos na extensa área do município.

Sempre há uma pergunta que não quer calar. Por que gestores públicos, ligados ao agro, nunca se interessaram em passar a limpo o que se passou com o perímetro legalizado da Fazenda Pirapó-Santo Anastácio, conhecida como o maior grilo de terras do estado de São Paulo?

Essa tal de “Terratrend” com certeza não tem a resposta.

Vida que segue, plagiando meu amigo Ricardo Kotscho.