CRÔNICA
O NARIZ: O DE GOGOL, O MEU E MAIS ALGUNS
Não sou um homem falso... nem um mero nariz de cera para ser torcido para um lado e para o outro.” (Sir Walter Scott)
José Benjamim de Lima (Pacheco)
Dar com o nariz na porta, não ver um palmo à frente dele, ou metê-lo onde não é chamado, são situações que, para continuar navegando na saborosa fraseologia popular, podem nos deixar de nariz à banda ou torcido e, com certeza, nos desautoriza aquela pose de se sentir senhor de seu nariz. Pior ainda será perdê-lo, em sentido próprio ou figurado.
Perder o próprio nariz deveria ser para todos uma tragédia inominável. Mas são tantos os que o perdem sem nem mesmo se darem conta disso que, pelo visto, perder o nariz tornou-se um acontecimento banal, naturalizado, burocrático. É verdade que muitos que o perdem, miram-se no exemplo do conto de Nicolai Gogol, onde o personagem, o inspetor-geral Kovaliov, para alegria e felicidade geral, sua e dos leitores, recuperou o seu, dias depois de tê-lo perdido. Receio, entretanto, que, ao contrário da ficção, a maioria dos que o perdem não mais o recuperam. Eu, de minha parte, adoro meu nariz e faço o possível, com algum insucesso, aqui e ali, não só para não o perder, mas também para mantê-lo no seu devido lugar.
É certo que não tenho nada parecido (longe disso!) com o belo e arrumadinho nariz da Isabelle Adjani. Não há nada mais encantador no mundo do que aquele narizinho que Deus lhe deu, maravilhosa antítese do que se pensa, quando se pensa em tão vulgar órgão humano. Ao contrário do dela, o meu não merece qualquer recomendação. Não chega a ser o feio narigão de tantos (acredito), mas está bem próximo disso; um pouco adunco, um pouco torto. O que importa é que… tenho nariz e isso, com certeza, não tem dinheiro que pague!
E não me venham com risinhos disfarçados de menoscabo. Amo meu nariz do jeito que é. Em meu favor, posso trazer à colação ilustres personagens que referendam e justificam meu orgulho. Tenho a companhia ilustre, nobre e clássica, de Dante Alighieri; suficiente, por si só, para fechar a boca de qualquer objeção ou comentário negativo ao meu. Entre os modernos, lembro Juca Chaves (“Nariz, ai, meu nariz / Como falam mal deste nasal que é tão normal,”) e, mais recentemente, Adrien Brody (portentoso em O Pianista e, agora, n’O Brutalista).
Com relação aos meus exemplos, os eternos detratores das alegrias da vida seriam tentados a comentar, com visível ironia: – Artistas bem-sucedidos… apesar de seus narizes! Em pronta defesa de meus semelhantes, direi, corrigindo: – Alto lá! Bem-sucedidos em grande parte graças exatamente aos seus narizes, ouviram? Ouçam os psicólogos: um nariz diferenciado é, com toda certeza, importante motivação para que seu portador faça a diferença no mundo…
Poderia acrescentar, em adminículo à tese do orgulho dos portadores de narizes um tanto quanto exagerados, o nome do ex-governador paulista Geraldo Alckmin, atual Vice-Presidente da República. Mas o Dr. Geraldo, que tendo a considerar um político sério, causou-me um certo espanto quando, por conveniências políticas, tornou-se militante do Partido Socialista Brasileiro – PSB. Nada contra o socialismo (devo dizer até que sempre tive uma certa queda por esta corrente política, escoimada, evidentemente, do stalinismo, maoísmo, madurismo e outras barbaridades equivalentes). Estou bastante vacinado em relação às incoerências da política, mas… Alckmin socialista? Pareceu-me que, neste ponto, o ilustre político, como tantos outros, perdeu o nariz…É certo que isso fez por lhe terem dado com o nariz na porta, mas, ainda assim, é coisa de torcer o dito cujo…
Eu sempre preferi continuar com o meu no seu devido lugar; sempre fiz de tudo para não o torcer, distorcer, retorcer, empinar, dar com ele na porta, mudá-lo de posição ou perdê-lo. Ele me possibilita não só detectar prontamente a presença dos odores pouco recomendáveis das misérias humanas, mas também e principalmente (o que um pouco me conforta) aspirar a leveza do ar puro da pura liberdade, sem tergiversações.
No longínquo século XII, o filósofo, teólogo e poeta francês Alain de Lille, intuiu lapidarmente a adaptabilidade instintiva dos narizes dos detentores de alguma parcela de poder. “As autoridades têm um nariz de cera”, disse ele, querendo com isso talvez significar o quanto esse tipo de gente costuma ser maleável nas suas convicções e atos, quando se trata de conquistar posições de poder ou de mantê-las. No teatro da política, mas não só nele, infelizmente, a sintonia fina dos narizes, sempre atenta e competente, roda como biruta ao sabor dos ventos (mas não à deriva), ora se encompridando como nariz de Pinóquio, ora se retorcendo e contorcendo, ou se deslocando e se perdendo, em darwiniana adaptação às conveniências e interesses da selva humana. “Nariz, ai, meu nariz…” ([email protected])
José Benjamim de Lima (Pacheco) é promotor aposentado e professor universitário. Artigo publicao na Edição 605 do jornal O FATO
