OPINIÃO

A igreja de Julio Lancelotti

A igreja de Julio Lancelotti
Publicado em 18/12/2025 às 10:50

Ulisses de Souza

A censura imposta pela Igreja Católica ao padre Júlio Lancelotti, da paróquia São Miguel Arcanjo, São Paulo, merece uma reflexão dos cristãos, não importam onde estejam, se no Chuí (RS) ou em Rancharia (SP).

O cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, proibiu Lancelotti de transmitir missas (pelo Youtube) e suspendeu suas atuações nas redes sociais.

Padre Júlio é conhecido pelo trabalho que desenvolve, em São Paulo, junto à população em situação de rua e de extrema vulnerabilidade.

Há uma frase famosa proferida por um arcebispo brasileiro que diz o seguinte: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”.

O autor é dom Hélder Câmara, líder religioso com trabalho marcante durante a ditadura militar por sua incansável luta pelos direitos humanos, sendo um exemplo de caridade e humildade.

Convivi como jornalista com dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, outro religioso que nunca deu um passo atrás ao denunciar os crimes praticados na ditadura militar.

Ser arcebispo de São Paulo é um peso sobre as costas de quem ocupa o cargo. Dom Odilo, ao censurar Lancelotti, justificou que queria preservá-lo diante de uma impiedosa campanha desenvolvida por parlamentares e grupos de direita.

Lancelotti incomodava e virou alvo político. Tentaram aprovar uma CPI na Câmara de São Paulo a fim de investigar suas atividades como religioso. O deputado federal do PL, cabo da PM Júnio Amaral (MG) se vangloria de ter protocolado no mês passado na Embaixada do Vaticano um abaixo-assinado, com apoio de mais de mil fiéis, pedindo o afastamento do padre de suas funções. Amaral é bolsonarista fundador do “Grupo da Direita” de Minas Gerais.

Coincidência ou não, dom Odilo se acovardou ao afastar Lancelotti de suas funções. Não vai chegar ao patamar de Helder Câmara ou Paulo Evaristo Arns.

Sou católico desde criancinha. Meus pais eram devotos de santos diferentes. Fui ensinado desde os 10 anos de idade a rezar. E não parei até hoje, com 77 anos de idade.

Com Julio Lancelotti conheci uma igreja diferente até no despontar de um santo sempre citado por ele. Atuando há mais de 40 anos na paróquia São Miguel Arcanjo, o padre sempre lembra a figura do santo como “um guerreiro, defensor da Igreja e o principal anjo oponente de Satanás”. A “Oração a São Miguel Arcanjo” traz a certeza da ajuda misteriosa e poderosa dos anjos. Do nascimento até a morte.

Assistir às missas de Lancelotti era a maneira de entender a interpretação do evangelho que traduz a frase proferida pelo Papa Francisco, que disse em encontro com jornalistas no Vaticano. “Como gostaria ter uma Igreja pobre e para os pobres”.

Tentam calar Julio Lancelotti por pura perseguição política.

Isso já aconteceu em Rancharia, quando um abaixo-assinado por cidadãos, considerados “impolutos guardiães da moral da igreja”, culminou com a transferência do padre João a uma paróquia da periferia de São Paulo, onde morreu.

Quando iniciei esse artigo afirmando que o assunto Lancelotti merece uma reflexão o alvo é a igreja Palotina de Rancharia, com suas objeções que contrariavam até ensinamentos do Papa Francisco.

A igreja não é para atender os anseios de uma elite conservadora e poderosa politicamente.

Precisa enxergar os invisíveis; e em Rancharia há  muitos.